Orçamento comercial é o plano financeiro da área de vendas: quanto a empresa espera vender em cada mês e quanto vai gastar para chegar lá, com pessoas, comissões, marketing, ferramentas e deslocamento. A forma mais confiável de montar é de baixo para cima, a partir do funil: a meta de receita, dividida pelo ticket médio, dá o número de vendas; as taxas de conversão dão as oportunidades e os leads necessários; esses volumes definem o tamanho do time e a verba de marketing. Depois, o orçamento é comparado com o realizado todo mês.
O orçamento é a tradução em dinheiro do planejamento comercial. O plano diz o que fazer e quando; o orçamento diz quanto custa e se a margem aguenta. Sem ele, a empresa descobre no meio do ano que contratou vendedores e aumentou a mídia sem saber se a receita esperada pagaria a conta.
O que entra no orçamento comercial
O orçamento tem dois lados. A receita prevista e os custos para gerá-la.
| Grupo | Itens | Como estimar |
|---|---|---|
| Receita prevista | Meta de faturamento por mês, ticket médio, número de vendas | Histórico, funil e sazonalidade |
| Pessoas | Salários fixos, encargos e benefícios de vendedores, SDRs e gestor | Quadro previsto mês a mês, com datas de contratação |
| Comissões | Comissões, prêmios e reflexos trabalhistas | Percentual da receita prevista, pela regra vigente |
| Marketing | Mídia paga, agência, produção de conteúdo, materiais | Leads necessários × custo por lead de cada canal |
| Ferramentas | CRM, telefonia, automação, bases de dados, assinatura de plataformas | Número de usuários × custo por usuário |
| Deslocamento | Combustível, pedágio, hospedagem, alimentação em viagem | Visitas previstas × custo médio por visita |
| Desenvolvimento | Treinamento, eventos, feiras, convenção de vendas | Calendário do ano |
| Recrutamento | Processo seletivo de vagas novas e reposição | Vagas previstas e turnover histórico |
Dois cuidados. Comissão gera reflexos em outras verbas trabalhistas, e o custo de cada pessoa vai além do salário (encargos e benefícios dependem do regime tributário e da convenção coletiva): peça ao contador o percentual da sua empresa. E se parte do time cuida da base (renovação, pós-venda), separe esse custo do custo de aquisição, para não distorcer o CAC.
Como montar de baixo para cima a partir do funil
O orçamento feito de cima para baixo (“vamos gastar o mesmo do ano passado mais 10%”) não diz se o gasto é suficiente para a meta. O de baixo para cima responde a essa pergunta.
Passo 1: da meta ao número de vendas
Vendas necessárias = meta de receita ÷ ticket médio
Exemplo hipotético: meta anual de R$ 3,6 milhões e ticket médio de R$ 12 mil. São 300 vendas no ano, ou 25 por mês em média.
Passo 2: das vendas às oportunidades e aos leads
Oportunidades = vendas ÷ taxa de fechamento
Leads = oportunidades ÷ taxa de lead para oportunidade
Continuando o exemplo, com 25% de fechamento e 20% dos leads virando oportunidade:
- 300 vendas ÷ 25% = 1.200 oportunidades no ano (100 por mês).
- 1.200 oportunidades ÷ 20% = 6.000 leads no ano (500 por mês).
Use as suas taxas reais dos últimos seis a doze meses, não as que você gostaria de ter. Se a empresa conta como lead qualquer cadastro, a taxa vai ser outra; o importante é usar sempre a mesma definição.
Passo 3: dos volumes ao time
Vendedores = oportunidades por mês ÷ oportunidades que um vendedor consegue trabalhar por mês
Se cada vendedor dá conta de 25 oportunidades por mês com qualidade, o exemplo pede 4 vendedores. Se cada SDR qualifica 250 leads por mês, são 2 SDRs. A capacidade por pessoa sai do histórico do próprio time; o guia de crescimento comercial mostra como calcular considerando o tempo de adaptação de quem entra.
Passo 4: dos leads à verba de marketing
Verba de mídia = leads necessários × custo por lead
Com custo por lead de R$ 30, os 500 leads mensais custam R$ 15 mil por mês em mídia. Em empresas com vários canais, faça a conta por canal, porque o custo por lead e a conversão de cada um são diferentes.
Passo 5: distribua pelos meses
A meta anual não se divide em doze partes iguais. Use o peso histórico de cada mês, como mostra o guia de metas de vendas, e lembre que a verba e a contratação precisam vir antes dos meses fortes, não junto com eles. O guia de sazonalidade de vendas mostra como calcular esse peso.
Planilha-modelo de orçamento comercial
Exemplo hipotético com os números acima, em média mensal. Os custos por pessoa já incluem encargos e benefícios estimados e servem só para mostrar a estrutura:
| Linha | Premissa | Mensal | Anual |
|---|---|---|---|
| Receita prevista | 25 vendas × R$ 12.000 | R$ 300.000 | R$ 3.600.000 |
| Vendedores (4) | R$ 6.500 por pessoa | R$ 26.000 | R$ 312.000 |
| SDRs (2) | R$ 4.000 por pessoa | R$ 8.000 | R$ 96.000 |
| Gestor comercial (1) | R$ 12.000 | R$ 12.000 | R$ 144.000 |
| Comissões e reflexos | 5% da receita | R$ 15.000 | R$ 180.000 |
| Mídia paga | 500 leads × R$ 30 | R$ 15.000 | R$ 180.000 |
| Agência e conteúdo | Contrato | R$ 5.000 | R$ 60.000 |
| Ferramentas | 7 usuários e telefonia | R$ 2.500 | R$ 30.000 |
| Deslocamento e viagens | Visitas previstas | R$ 3.500 | R$ 42.000 |
| Treinamento, eventos e recrutamento | Calendário do ano | R$ 3.000 | R$ 36.000 |
| Custo comercial total | R$ 90.000 | R$ 1.080.000 | |
| Custo comercial sobre a receita | R$ 90.000 ÷ R$ 300.000 | 30% | 30% |
| Custo comercial por venda | R$ 90.000 ÷ 25 | R$ 3.600 |
Na versão real, a planilha tem uma coluna por mês, porque a receita segue a sazonalidade, as pessoas entram em datas diferentes e algumas despesas (feira, convenção) acontecem num mês só. A estrutura de linhas é a mesma.
Monte a planilha com as premissas em células separadas (ticket, conversões, custo por lead, capacidade por pessoa), e não digitadas dentro das fórmulas. Assim, na revisão, mudar uma premissa recalcula o orçamento inteiro.
Custo comercial sobre a receita: o indicador que resume o orçamento
Custo comercial sobre a receita = custo comercial total ÷ receita do período
No exemplo, 30%. Esse número sozinho não diz se o orçamento é bom ou ruim: um percentual que é saudável para uma empresa de margem alta quebra uma de margem baixa. O teste é feito contra a própria margem.
O teste da margem de contribuição
A margem de contribuição já desconta a comissão, porque ela é uma despesa variável. Então a comparação justa é entre a margem de contribuição e o custo comercial sem comissão:
| Item (mensal, exemplo hipotético) | Valor | % da receita |
|---|---|---|
| Receita | R$ 300.000 | 100% |
| Margem de contribuição (já descontada a comissão) | R$ 135.000 | 45% |
| (−) Custo comercial sem comissão | R$ 75.000 | 25% |
| Sobra para as outras despesas fixas e o lucro | R$ 60.000 | 20% |
Se essa sobra não paga o resto das despesas fixas da empresa (administrativo, aluguel, operação que não é variável) e ainda deixa lucro, o orçamento comercial não fecha. As saídas são rever a meta, a estrutura do time, a verba ou a própria margem.
O teste do caixa
O custo comercial vem antes da receita. O vendedor novo recebe salário meses antes de produzir, e a mídia é paga antes de os clientes fecharem. Por isso, além do teste de margem, simule o caixa mês a mês nos meses de contratação e de aumento de verba. Um orçamento que fecha no ano pode faltar dinheiro em março.
Custo comercial por venda
Dividir o custo comercial pelo número de vendas dá um custo por venda de R$ 3.600 no exemplo. Ele é próximo do CAC, com a diferença de que o CAC exclui o custo de cuidar da base. O guia de CAC e LTV mostra como usar esse número para decidir até onde vale investir.
Revisão mensal: orçado contra realizado
O orçamento só é útil se for comparado com o realizado todo mês, linha por linha, olhando também as premissas.
Exemplo hipotético de um mês:
| Linha | Orçado | Realizado | Variação |
|---|---|---|---|
| Receita | R$ 300.000 | R$ 270.000 | −10% |
| Leads | 500 | 520 | +4% |
| Oportunidades | 100 | 88 | −12% |
| Vendas | 25 | 22 | −12% |
| Ticket médio | R$ 12.000 | cerca de R$ 12.270 | +2% |
| Mídia paga | R$ 15.000 | R$ 15.000 | 0% |
| Custo comercial total | R$ 90.000 | R$ 88.500 | −2% |
| Custo comercial sobre a receita | 30% | cerca de 33% | +3 pontos |
A leitura: a mídia entregou mais leads do que o previsto, mas a passagem de lead para oportunidade caiu de 20% para cerca de 17% (88 ÷ 520). O problema não está na verba nem no fechamento, e sim na qualificação. Aumentar a mídia para compensar só aumentaria o custo.
Uma rotina de revisão que funciona:
| Frequência | O que revisar | Decisão possível |
|---|---|---|
| Mensal | Orçado contra realizado, linha por linha e por premissa | Remanejar verba entre canais, corrigir processo |
| Trimestral | Premissas: ticket, conversões, custo por lead, capacidade | Refazer a projeção dos meses seguintes (forecast) |
| Semestral | Cenário do ano | Antecipar ou adiar contratações, rever a meta |
Mantenha o orçamento original como referência e trabalhe a revisão numa coluna separada. Assim, no fim do ano, dá para saber o que mudou e por quê. Para a projeção dos meses seguintes, o guia de previsão de vendas mostra como combinar o funil e o histórico.
Quando o realizado fica abaixo do orçado, a primeira reação costuma ser cortar treinamento e ferramentas; antes disso, olhe em qual etapa do funil a premissa falhou, porque é ela que diz onde o dinheiro está sendo desperdiçado.
Checklist do orçamento comercial
- A receita prevista parte da meta, do ticket e das taxas de conversão reais.
- O tamanho do time sai do volume de oportunidades e da capacidade por pessoa.
- A verba de marketing sai dos leads necessários e do custo por lead de cada canal.
- O custo de cada pessoa inclui encargos e benefícios, com percentual confirmado pelo contador.
- Comissões e reflexos estão orçados como percentual da receita.
- Os valores estão distribuídos por mês, respeitando sazonalidade e datas de contratação.
- O custo comercial sem comissão cabe na margem de contribuição, com sobra para o resto.
- Existe simulação de caixa nos meses de contratação e aumento de verba.
- Orçado contra realizado é revisado todo mês, com dono para cada linha.
Erros mais comuns
Orçar de cima para baixo. “O mesmo do ano passado mais 10%” não diz se o gasto é suficiente para a meta nem se a meta cabe no gasto.
Esquecer encargos e reflexos. O custo de um vendedor não é o salário da carteira. Orçar só o salário subestima a linha que mais pesa.
Dividir tudo em doze. Receita, contratação e verba têm calendário. O orçamento linear cria meses com sobra e meses com falta.
Comparar o custo comercial com a margem bruta. A margem bruta não desconta comissão, frete e taxas. A comparação certa é com a margem de contribuição.
Revisar só a receita. Se a receita ficou abaixo, a pergunta é qual premissa falhou. Sem olhar o funil, o corte cai na linha errada.
Engavetar o orçamento. Orçamento que não volta à mesa todo mês vira um documento de janeiro. A revisão mensal é o que faz dele uma ferramenta de gestão.
Um orçamento comercial bem feito responde a três perguntas antes de o dinheiro sair: quanto vamos vender, quanto vai custar e se a margem paga a conta. Para ver como ele se conecta com o plano anual e as outras alavancas de crescimento, volte ao guia de crescimento comercial.
Perguntas frequentes
O que é orçamento comercial?
É o plano financeiro da área de vendas para um período, normalmente o ano dividido em meses: quanto a empresa espera vender e quanto vai gastar para isso com pessoas, comissões, marketing, ferramentas e deslocamento. Ele transforma a meta de vendas em números de custo que podem ser acompanhados todo mês.
O que entra no orçamento de vendas?
Do lado da receita, a meta de faturamento por mês, com as premissas de ticket e conversão. Do lado do custo, salários e encargos do time comercial, comissões e seus reflexos, verba de mídia, serviços de marketing, ferramentas, deslocamento e viagens, treinamento, eventos e recrutamento.
Como montar o budget de vendas de baixo para cima?
Parta da meta de receita e divida pelo ticket médio para chegar ao número de vendas. Divida pelas taxas de conversão do funil para chegar às oportunidades e aos leads necessários. Com esses volumes, calcule quantas pessoas o time precisa e quanto de mídia é preciso para gerar os leads. A soma desses custos é o orçamento.
Qual percentual da receita deve ir para a área comercial?
Não existe um percentual que sirva para toda empresa: ele depende da margem, do ticket, do ciclo de venda e da fase de crescimento. O teste que vale é interno: o custo comercial sem comissão precisa caber na margem de contribuição e ainda deixar espaço para as outras despesas fixas e o lucro.
CEO do Grupo VMX
Geovane Martins é CEO do Grupo VMX, empresa de Belo Horizonte que ajuda empresas a venderem mais com consultoria comercial, marketing e recrutamento de vendedores. Escreve sobre gestão comercial, contratação de equipes de vendas e crescimento.