Hunter é o vendedor que busca e fecha clientes novos; farmer é o vendedor que cuida da carteira de quem já compra, com foco em recompra, renovação e expansão. Vale separar as funções quando a carteira ativa fica grande demais para ser atendida junto com a prospecção e quando a receita da base passa a pesar no faturamento, porque a partir daí um vendedor só não consegue fazer as duas coisas bem. Separar exige três decisões: metas e comissão diferentes para cada um, uma regra clara de passagem da conta e um critério de quem é o dono de cada cliente.
Este artigo trata do corte entre cliente novo e cliente da base. A divisão da venda nova em etapas, com um profissional que qualifica e outro que fecha, é outro corte, explicado no artigo sobre SDR e closer. A estrutura completa do time está no guia de gestão comercial.
O que faz o vendedor hunter
O hunter trabalha na ponta de cima do funil até o primeiro contrato. Rotina típica:
- prospectar contas do ICP, por conta própria ou a partir de leads de marketing e SDRs;
- fazer diagnóstico, apresentar proposta e negociar;
- fechar o primeiro pedido ou contrato;
- passar a conta para o farmer, com o histórico registrado.
O perfil que costuma render nessa função tolera bem a rejeição, gosta de ritmo e de meta de curto prazo e se motiva com a conquista. A fraqueza mais comum é a falta de paciência com o pós-venda: depois que o contrato é assinado, o interesse cai.
O que faz o vendedor farmer
O farmer é dono do relacionamento comercial com a carteira. Rotina típica:
- acompanhar o uso, o volume e a satisfação de cada cliente;
- garantir renovação de contrato ou recompra no prazo esperado;
- identificar oportunidades de expansão: mais volume, mais unidades, outros produtos;
- antecipar risco de perda, como queda de pedido, troca de decisor ou reclamação recorrente;
- negociar reajustes.
O perfil que rende aqui é organizado, gosta de relacionamento longo e de entender o negócio do cliente a fundo. A fraqueza mais comum é a acomodação: atender bem quem liga e não provocar crescimento.
Farmer não é atendimento nem sucesso do cliente
Em muitas empresas existe uma área de atendimento ou de sucesso do cliente (CS) que resolve problemas e ajuda o cliente a usar o produto. O farmer pode trabalhar junto com ela, mas tem meta comercial: renovação, expansão e receita da carteira. Se a pessoa não tem meta de receita, ela não é farmer, é atendimento.
Diferença entre hunter e farmer na prática
| Dimensão | Hunter | Farmer |
|---|---|---|
| Objetivo | Conquistar clientes novos | Reter e expandir clientes da base |
| Início do trabalho | Conta que ainda não compra | Conta que já assinou ou comprou |
| Ciclo de atividade | Prospecção, diagnóstico, proposta, fechamento | Acompanhamento, revisão de conta, renovação, expansão |
| Horizonte | Curto: o fechamento do mês | Longo: a receita da conta ao longo do ano |
| Indicadores principais | Novos clientes, receita nova, conversão, ciclo de venda | Retenção, receita da carteira, expansão, recompra |
| Risco típico | Vender para cliente fora do ICP para bater meta | Acomodar e só reagir aos pedidos |
| Tamanho da carteira | Pequena ou inexistente | Definida e limitada por pessoa |
Quando separar hunter e farmer
Não existe um número único de clientes que obrigue a separação. A decisão depende de quanto tempo a carteira consome e de quanto ela pesa no faturamento. Os sinais mais confiáveis:
- A prospecção caiu. O vendedor generalista passa a maior parte da semana atendendo clientes e a geração de oportunidades novas cai mês a mês.
- A carteira foi abandonada. O contrário: o vendedor corre atrás da meta de novos e a recompra ou a renovação dos clientes antigos cai.
- A receita da base é relevante. Em vendas recorrentes, de contrato ou com recompra frequente, a receita de quem já é cliente costuma ser uma parte importante do faturamento. Quanto maior essa parte, mais caro é deixá-la sem dono.
- Existe potencial de expansão não explorado. Clientes que compram só uma linha de produto ou atendem só uma unidade, sem ninguém trabalhando o resto.
- O cliente reclama de abandono depois da venda. Sinal de que o vendedor fechou e foi embora.
Diagnóstico com dados do CRM
Antes de decidir, levante para os últimos 12 meses:
| O que medir | Onde encontrar | O que indica |
|---|---|---|
| Participação da receita da base no faturamento | Faturamento por cliente, novo × existente | O peso da carteira |
| Tempo semanal do vendedor em atendimento × prospecção | Registro de atividades no CRM ou amostra de agenda | Se a carteira está tomando a prospecção |
| Número de clientes ativos por vendedor | CRM ou ERP | A carga de cada um |
| Taxa de recompra ou renovação | Histórico de pedidos ou contratos | Se a base está sendo cuidada |
| Clientes sem contato comercial nos últimos 90 dias | CRM | Quantas contas estão sem dono de fato |
Se a receita da base é grande, o tempo do vendedor já pende para o atendimento e há muitas contas sem contato, a separação tende a pagar a própria conta. Se a carteira é pequena e a empresa está em fase de conquista, manter o generalista com metas separadas costuma ser suficiente.
Antes de contratar um farmer, faça um teste de baixo custo: escolha as contas que mais faturam, defina um responsável por elas por um trimestre, com meta de renovação e expansão, e compare a receita dessas contas com o mesmo período do ano anterior e com as contas que continuaram com o generalista. Se a diferença aparecer, a separação tem dado para se sustentar. O erro comum é decidir pela separação porque o time está sobrecarregado, sem medir antes quanto da semana vai para a carteira. Muitas vezes a sobrecarga vem de atendimento operacional que deveria estar com outra área, e não de trabalho comercial.
Modelos intermediários
Separar não precisa ser tudo ou nada:
- Generalista com meta dividida: o mesmo vendedor, com uma meta de novos e outra de base, e horários fixos na semana para cada frente.
- Carteira só para contas grandes: um farmer cuida das maiores contas e os demais clientes ficam com os vendedores generalistas.
- Hunter com período de transição: o hunter acompanha o cliente por um período definido depois da venda e só então passa para o farmer.
Metas diferentes para cada função
Hunter e farmer não podem ter a mesma meta, porque não controlam as mesmas coisas.
| Função | Metas de resultado | Metas de atividade |
|---|---|---|
| Hunter | Número de clientes novos; receita nova; ticket do primeiro pedido | Oportunidades abertas; diagnósticos; propostas |
| Farmer | Receita da carteira em relação ao período anterior; taxa de renovação; receita de expansão | Revisões de conta realizadas; clientes contatados no período; plano de conta atualizado |
Dois cuidados:
- A meta do farmer parte da carteira, não do zero. Ela compara a receita da carteira com a do período anterior, descontando perdas que estão fora do controle dele, como encerramento de atividade do cliente, se a empresa decidir tratar assim.
- A meta do hunter considera a qualidade. Cliente novo que cancela logo depois da venda não deveria contar igual a cliente que fica. Uma forma de tratar é considerar a venda só após o primeiro pagamento ou após um período mínimo de permanência.
A construção da meta, do número da empresa até a atividade semanal, está no artigo de metas de vendas.
Comissão de hunter e de farmer
A lógica da remuneração variável segue a das metas: cada um ganha pelo que controla.
| Elemento | Hunter | Farmer |
|---|---|---|
| Base de cálculo da variável | Receita nova fechada | Crescimento, renovação e expansão da carteira |
| Peso da variável na remuneração | Costuma ser maior | Costuma ser menor, com fixo mais estável |
| Gatilho | Venda faturada ou primeiro pagamento | Renovação assinada; receita da carteira acima de um patamar |
| Proteção contra distorção | Estorno ou carência se o cliente sair cedo, dentro do que a lei permite | Não pagar sobre receita que viria de qualquer forma |
Pagar ao farmer comissão cheia sobre todo o faturamento da carteira é o erro mais caro: a empresa remunera receita que já existia, e o farmer não tem incentivo para crescer. Pagar ao hunter só pela assinatura, sem olhar a permanência, incentiva vender para quem não vai ficar.
Regras de comissão para vendedores contratados pela CLT têm limites legais, principalmente sobre quando a comissão é devida e em que casos é possível estornar. Esses limites, com os artigos de lei correspondentes, estão no artigo de comissão de vendas. Qualquer mudança na política de quem já está no time deve ser validada com assessoria jurídica.
Como passar a conta do hunter para o farmer
A passagem é o momento em que mais se perde cliente na separação. O cliente criou relação com o hunter e, de repente, fala com outra pessoa que não sabe nada sobre ele.
Regras de passagem
- Momento definido: por exemplo, após o primeiro faturamento, após a implantação ou após um número fixo de dias.
- Reunião conjunta: hunter, farmer e cliente, em uma conversa curta para apresentar o novo responsável.
- Histórico no CRM: nada de “depois eu te conto”. Tudo o que o hunter sabe está registrado antes da reunião.
- Período de sobreposição: o hunter continua disponível para dúvidas por algumas semanas, sem ser o responsável.
Modelo de ficha de passagem de conta
| Campo | O que preencher |
|---|---|
| Cliente e contatos | Decisor, usuário principal, financeiro, com telefone e papel de cada um |
| Por que comprou | A dor que motivou a compra, nas palavras do cliente |
| O que foi prometido | Prazos, condições especiais, entregas combinadas |
| Condições comerciais | Preço, desconto, prazo de pagamento, data de renovação ou próxima compra esperada |
| Riscos percebidos | Concorrente que ainda está na mesa, decisor que resistiu, expectativa alta demais |
| Potencial de expansão | Outras unidades, áreas ou produtos que apareceram no diagnóstico |
| Próximo passo | Data e objetivo do primeiro contato do farmer |
Quem é dono do cliente
Escreva a regra antes de separar. As dúvidas mais comuns:
- Cliente antigo que ficou muito tempo sem comprar e volta: é reconquista (hunter) ou base (farmer)?
- Nova unidade de um cliente atual em outra cidade: expansão (farmer) ou conta nova (hunter)?
- Indicação feita por um cliente da carteira: de quem é a venda?
Não há resposta certa universal. O que não pode é a regra ser decidida caso a caso, porque vira disputa no fim do mês.
Um formato que evita a maior parte das disputas é uma tabela curta no playbook com três colunas: a situação (cliente que volta depois de muito tempo sem comprar, nova unidade, indicação, compra de outro produto), quem é o dono e quem recebe a comissão. Escreva a regra antes da primeira venda que gere dúvida, porque, decidida no meio de um caso concreto, ela sempre parece favorecer alguém. Revise a tabela na revisão trimestral e registre no CRM o responsável de cada conta, para que a resposta esteja na ferramenta e não na memória do gestor.
Hunter e farmer em diferentes segmentos
O peso de cada função muda conforme o tipo de venda:
- Indústria e distribuição: a recompra é frequente e a carteira costuma concentrar boa parte do faturamento. O farmer é muitas vezes o vendedor externo que visita a carteira, com metas de volume e mix. O artigo de vendas para indústria detalha esse modelo.
- Serviços recorrentes e contratos: a renovação é o momento crítico, e o farmer trabalha meses antes da data.
- Venda única ou de ciclo longo sem recompra: o farmer faz pouco sentido; o pós-venda fica com atendimento e o foco comercial é o hunter, com indicação como fonte de leads.
Erros mais comuns
Separar cedo demais. Com poucos clientes ativos, o farmer fica ocioso e o custo do time sobe sem retorno.
Separar tarde demais. A carteira já está abandonada e parte dos clientes já foi embora quando o farmer chega.
Mesma comissão para os dois. Cada função precisa ganhar pelo que controla.
Passagem sem ficha e sem reunião. O cliente sente que foi deixado de lado logo depois de assinar.
Farmer sem meta de crescimento. Vira atendimento caro.
Não definir dono da conta. Gera disputa interna e cliente atendido por duas pessoas, ou por nenhuma.
Checklist para separar hunter e farmer
- Dados levantados: peso da receita da base, clientes por vendedor, tempo em atendimento, contas sem contato.
- Modelo escolhido: separação total, só contas grandes ou generalista com meta dividida.
- Metas de resultado e de atividade definidas para cada função.
- Política de comissão revisada e validada juridicamente.
- Momento e ritual de passagem definidos.
- Ficha de passagem no CRM.
- Regra escrita de propriedade de conta.
Hunter e farmer é uma das decisões de estrutura do time comercial. As outras, como a divisão entre SDR e closer e o tamanho de cada equipe, estão reunidas no guia de gestão comercial.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre hunter e farmer?
O hunter busca e fecha clientes novos: prospecta, qualifica, negocia e assina o primeiro contrato. O farmer cuida da carteira de clientes que já compram: garante recompra, renovação, aumento de volume e venda de outros produtos. O hunter é medido por novos clientes e receita nova; o farmer, por retenção e crescimento da receita da base.
Hunter e farmer é a mesma coisa que SDR e closer?
Não. SDR e closer dividem a venda nova em etapas: um qualifica e agenda, o outro diagnostica e fecha. Hunter e farmer dividem pelo tipo de cliente: novo ou da base. Os dois cortes podem coexistir. Uma empresa pode ter SDRs gerando reuniões para hunters que fecham, e farmers cuidando da carteira depois.
Quando vale a pena ter um farmer separado?
Quando a carteira de clientes ativos já é grande o bastante para ocupar uma pessoa e quando a receita da base pesa no faturamento, principalmente em vendas recorrentes ou com recompra frequente. O sinal mais claro é o vendedor generalista deixar de prospectar porque o atendimento da carteira toma o tempo dele, ou deixar a carteira de lado para bater a meta de novos.
Como remunerar o farmer?
Com variável ligada ao que ele controla: receita da carteira em relação ao período anterior, renovações, expansão de volume ou de produtos e, em alguns modelos, inadimplência ou cancelamento. Pagar ao farmer a mesma comissão do hunter sobre todo o faturamento da carteira tende a premiar receita que viria de qualquer forma.
Um vendedor pode ser hunter e farmer ao mesmo tempo?
Pode, e é o modelo mais comum em times pequenos. Funciona enquanto a carteira é pequena e a meta separa claramente o que é cliente novo do que é base. Quando uma das duas frentes começa a ser abandonada de forma sistemática, é hora de avaliar a separação.
CEO do Grupo VMX
Geovane Martins é CEO do Grupo VMX, empresa de Belo Horizonte que ajuda empresas a venderem mais com consultoria comercial, marketing e recrutamento de vendedores. Escreve sobre gestão comercial, contratação de equipes de vendas e crescimento.