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Vendas na construção civil: o comercial B2B do setor

Por · Publicado em · 9 min de leitura

Vendas na construção civil, no sentido B2B, são a venda de materiais, sistemas, equipamentos e serviços para construtoras, incorporadoras, empreiteiras e obras. Para vender bem nesse mercado, o comercial precisa de quatro coisas: separar quem especifica de quem compra e trabalhar os dois, acompanhar o cronograma de cada obra para chegar antes da cotação, montar propostas que concorram por mais do que preço e manter relacionamento com a obra até a entrega final, porque é lá que nasce a próxima venda.

Este artigo trata da venda para obras, não da venda de imóveis. O guia de vendas por segmento compara a construção com outros mercados, e o guia de vendas B2B cobre a base do processo com vários decisores. Aqui está o que é próprio do setor.

Especificação e compra: duas vendas na mesma obra

A característica mais importante da venda na construção é que a decisão acontece em dois momentos, com pessoas diferentes:

  1. Especificação: alguém define o que pode ser usado na obra. Isso acontece no projeto (arquitetônico, estrutural, de instalações), no memorial descritivo ou na aprovação técnica da equipe da obra.
  2. Compra: depois, o setor de suprimentos cota entre fornecedores que atendem àquela especificação e escolhe pelo preço, pelo prazo e pelas condições.

Quem só aparece no segundo momento disputa preço com todos os concorrentes que atendem à especificação. Quem entra no primeiro pode ter o produto citado em projeto ou ser o padrão técnico da construtora, e chega à cotação com vantagem.

Momento Quem decide O que avalia O que o vendedor leva
Especificação em projeto Arquiteto, projetista, consultor técnico Desempenho, estética, norma técnica, facilidade de detalhar Ficha técnica, detalhes construtivos, amostras, suporte para o projeto
Aprovação técnica na construtora Diretoria técnica, setor de qualidade, engenharia Desempenho, histórico, risco de patologia, produtividade na aplicação Ensaios, laudos, obras de referência, treinamento de aplicação
Aprovação na obra Engenheiro e mestre de obras Prazo, facilidade de aplicação, mão de obra necessária Cronograma de entrega, suporte técnico, visita à obra
Compra Comprador ou setor de suprimentos Preço, prazo de entrega, condição de pagamento, histórico de entrega Proposta comercial competitiva e confiável

Os decisores: engenheiro, arquiteto e comprador

O mapa de decisores do guia de vendas B2B se aplica, mas na construção cada papel tem um interesse bem definido. Conhecê-los muda a conversa.

Arquiteto e projetista

Querem que o projeto funcione e que a solução seja fácil de detalhar e de defender junto ao cliente. Não compram, mas definem o que entra na lista. O trabalho com eles é de longo prazo: apresentações técnicas, material de projeto pronto para usar e disponibilidade para tirar dúvidas durante o detalhamento.

Engenheiro da obra

Responde pelo prazo, pelo custo e pela qualidade da execução. Tem pouco tempo e muita pressão. Valoriza o fornecedor que entrega no dia combinado, resolve problema na obra e não cria retrabalho. Uma visita técnica bem feita, com solução para um problema real da obra, pesa mais do que qualquer apresentação.

Comprador

É avaliado por quanto economiza e por não deixar faltar material. Compara propostas lado a lado e tem regras da construtora a seguir: número mínimo de cotações, cadastro de fornecedor, alçadas de aprovação. Ele precisa de uma proposta clara, comparável e com prazo de entrega confiável.

Outros participantes

Dependendo do porte da construtora, entram ainda a diretoria (em contratos grandes), o setor de qualidade (homologação de fornecedores) e o financeiro (condições de pagamento). Em obras menores, o próprio dono da construtora acumula vários papéis.

Para mapear, registre no CRM, para cada obra, o nome e o papel de cada pessoa: quem especifica, quem aprova tecnicamente, quem compra e quem homologa fornecedores. Erro comum: o vendedor conhece bem o comprador e não sabe o nome do engenheiro da obra. Quando o comprador recebe uma proposta mais barata, não há ninguém do lado técnico para defender a sua.

O ciclo de venda segue o cronograma da obra

Na construção, o momento da compra é definido pelo cronograma físico da obra. Cada material tem uma janela: antes dela, ninguém quer conversar; depois, a compra já foi feita. O vendedor que conhece as fases da obra sabe quando aparecer.

Modelo de mapa de oportunidades por fase (as fases são uma simplificação; ajuste para o que você vende):

Fase da obra O que acontece Quem está decidindo Oportunidades típicas
Projeto e aprovação Projetos sendo desenvolvidos e aprovados Arquitetos, projetistas, diretoria técnica Especificação de sistemas e materiais
Lançamento e contratação Orçamento da obra fechado, contratação de empreiteiras Diretoria, engenharia, suprimentos Contratos globais, fornecimento por obra
Fundação e estrutura Movimento de terra, fundação, estrutura Engenheiro e suprimentos Concreto, aço, formas, equipamentos
Vedação e instalações Alvenaria, instalações elétricas e hidráulicas Engenheiro e suprimentos Blocos, tubos, cabos, esquadrias
Acabamento Revestimentos, pintura, louças e metais Engenheiro, arquiteto e suprimentos Revestimentos, tintas, louças, iluminação
Entrega e assistência Vistoria, entrega, assistência técnica Engenharia e pós-obra Reposição, manutenção, garantia

Para usar esse mapa:

  • Cadastre cada obra no CRM como uma conta, com construtora, endereço, fase atual, previsão das próximas fases e contatos de cada papel.
  • Programe o contato pela fase seguinte, não pela atual. Se você vende acabamento, a hora de falar com a obra é durante a estrutura, quando o planejamento das compras de acabamento começa.
  • Atualize a fase a cada visita. Cronograma de obra muda, e a oportunidade muda junto.

A previsão de vendas, nesse modelo, deixa de ser “o cliente disse que vai comprar” e passa a ser “a obra entra em acabamento em tal mês, e já estamos especificados”.

Para encontrar obras, combine fontes: placas de obra e alvarás na sua região, lançamentos divulgados pelas construtoras, indicação de engenheiros e arquitetos que já são clientes e a própria carteira de construtoras atendidas.

Cotação e concorrência: como montar a proposta

Mesmo quem está especificado vai passar por cotação. As construtoras costumam pedir várias propostas, e o comprador precisa justificar a escolha. Para não perder só no preço:

O que a proposta precisa ter

Item Por que importa
Descrição técnica igual à especificação O comprador precisa conferir que você atende ao que foi pedido
Preço unitário e total, com impostos e frete claros Comparação justa com as outras propostas
Prazo de entrega e possibilidade de entrega fracionada A obra não quer estocar material no canteiro nem esperar
Condição de pagamento Pesa no caixa da obra tanto quanto o preço
Validade da proposta e regra de reajuste Obras longas sofrem com variação de preço de insumos
Suporte técnico incluído Visita de acompanhamento, treinamento de aplicação, assistência
Referências de obras parecidas Reduz o risco percebido pelo engenheiro

Como negociar com o comprador

  • Pergunte o critério de decisão antes de mandar preço. “Além do preço, o que vocês vão olhar para escolher?” A resposta diz onde concentrar a proposta.
  • Troque condição por condição. Se o comprador pede desconto, ofereça em troca volume maior, prazo de pagamento menor ou contrato para mais de uma obra.
  • Leve o engenheiro para a conversa quando o valor técnico pesa. O comprador pode aceitar pagar mais se a obra disser que o produto reduz retrabalho ou prazo.
  • Não baixe o preço antes de entender a objeção. Às vezes o problema é o prazo de entrega, não o valor.

O guia de negociação comercial detalha como preparar a negociação, definir limites e fazer concessões com contrapartida.

Construtora, revenda ou os dois

Nem toda venda para obra é direta. Muitas obras compram de lojas de material de construção e de distribuidores, principalmente as menores e os itens de reposição. O fabricante ou o fornecedor precisa decidir como atender cada perfil:

Perfil de obra Canal mais comum Papel do vendedor do fornecedor
Grande construtora, obras de grande porte Venda direta, contrato por obra ou por período Gerir a conta, trabalhar a especificação, negociar com suprimentos
Construtora média Venda direta ou por distribuidor, conforme volume Especificação e apoio técnico; pedido pode ir pelo distribuidor
Pequena construtora e empreiteiro Loja de material ou distribuidor Treinar o balcão da revenda e gerar demanda com os profissionais
Reforma e autoconstrução Varejo de material de construção Fora do escopo deste artigo

Quando parte das vendas passa por revenda, o comercial precisa combinar quem atende cada obra para não haver conflito de preço entre a venda direta e o distribuidor. A gestão comercial de quem revende para obras e lojas segue a lógica do guia de vendas no atacado.

Relacionamento com a obra

A venda não termina na entrega do primeiro lote. Em obra, o relacionamento depois da compra decide se o fornecedor continua nas próximas fases e nas próximas obras da construtora.

Rotina de acompanhamento de uma obra ativa:

  • Visita no início do fornecimento para conferir recebimento, armazenagem e aplicação.
  • Contato antes de cada entrega programada, com o engenheiro ou o almoxarife.
  • Registro de qualquer problema (atraso, avaria, falha de aplicação) e da solução dada.
  • Treinamento da equipe de aplicação quando o produto exige.
  • Conversa com o engenheiro perto do fim da fase para saber o que vem a seguir.
  • Pedido de referência ou de contato na próxima obra da construtora ao final do fornecimento.

Engenheiros e compradores mudam de obra e de empresa. Quem foi bem atendido numa obra leva o fornecedor junto. Por isso vale registrar no CRM a pessoa, não só a construtora, e acompanhar para onde ela vai.

Uma prática simples: ao fim de cada fornecimento, pergunte ao engenheiro qual é a próxima obra dele e quando ela começa, e cadastre a resposta como oportunidade no CRM, com data de retorno.

Indicadores do comercial na construção civil

Indicador O que mostra
Obras mapeadas por fase Tamanho e momento do mercado que o time acompanha
Taxa de especificação Obras em que o produto foi especificado ÷ obras trabalhadas
Cotações recebidas e taxa de conversão Quantas cotações viram pedido
Conversão de cotação com e sem especificação Quanto vale entrar antes da compra
Prazo médio de entrega cumprido Confiabilidade do fornecedor perante a obra
Receita por construtora e por obra Concentração da carteira e potencial de expansão
Construtoras com mais de uma obra atendida Força do relacionamento

O cruzamento entre conversão com e sem especificação é o argumento mais forte para convencer o time a investir tempo com arquitetos e projetistas, que não compram mas decidem o que entra na lista.

Erros mais comuns

Correr só atrás de cotação. O vendedor que só aparece quando o comprador manda a lista disputa preço com todo mundo.

Ignorar quem especifica. Arquiteto e projetista não fecham pedido, e por isso costumam ficar fora da agenda. É onde a venda começa.

Não acompanhar o cronograma. Chegar na obra depois que a compra foi feita é a perda mais comum e mais evitável do setor.

Prometer prazo que a logística não cumpre. Atraso de material para a obra inteira, e o engenheiro não esquece o fornecedor que atrasou.

Tratar cada obra como venda isolada. A construtora que foi bem atendida tem outras obras, e os engenheiros dela também.

Perguntas frequentes

Como vender para construtoras?

Mapeie as obras em andamento e em lançamento, descubra em que fase cada uma está e quem participa da decisão: quem especifica (projetista, arquiteto, engenheiro), quem aprova tecnicamente na obra e quem compra (setor de suprimentos). Entre na especificação antes da compra e acompanhe o cronograma para estar presente quando a cotação for aberta.

Quem decide a compra numa construtora?

Normalmente mais de uma pessoa. O projetista ou o arquiteto define o que pode ser usado, o engenheiro da obra aprova a aplicação e o prazo, e o comprador negocia preço e condições. Em construtoras maiores, a diretoria técnica ou o setor de qualidade também homologa fornecedores. Cada um avalia a proposta por um critério diferente.

Como não perder a venda só por preço na cotação?

Estando na especificação antes da cotação, com o produto citado em projeto ou memorial, e oferecendo condições que o comprador valoriza além do preço: prazo de entrega compatível com o cronograma, entrega fracionada, suporte técnico na obra e condição de pagamento. Quando a cotação chega e você é só mais um nome na lista, sobra o preço.

Vendas na construção civil é o mesmo que vendas imobiliárias?

Não. Vendas imobiliárias são a venda de imóveis prontos ou na planta para compradores finais. Vendas na construção civil, neste artigo, são a venda de materiais, equipamentos e serviços para construtoras e obras, uma venda B2B com vários decisores e ciclo ligado ao cronograma da obra.

COO do Grupo VMX

Pedro Favaretto é COO do Grupo VMX, em Belo Horizonte, e responde pela operação que estrutura processos comerciais, geração de demanda e times de vendas de empresas clientes. Escreve sobre processo de vendas, marketing, tecnologia comercial e vendas por segmento.

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