Contratar um vendedor CLT custa, por mês, a remuneração (fixo, comissão e DSR sobre comissão) mais os encargos e provisões: INSS patronal, RAT, contribuições a terceiros, FGTS de 8%, 13º salário e férias com 1/3. No regime geral de tributação, essa soma costuma ficar entre 1,5 e 1,7 vez a remuneração, antes dos benefícios. No Simples Nacional, a conta muda, porque parte dos encargos está dentro do DAS. E há um custo que não aparece na folha: o de contratar a pessoa errada, que costuma ser bem maior do que o de contratar certo.
Este artigo mostra a conta linha por linha, com premissas explícitas, para você montar a planilha da sua empresa. O guia de contratação de vendedores cobre o processo completo; aqui o foco é o dinheiro.
Aviso: este conteúdo é informativo e não substitui a orientação do seu contador e do seu advogado trabalhista. Alíquotas variam conforme o regime tributário, a atividade da empresa e a convenção coletiva da categoria.
O que entra no custo de um vendedor CLT
O custo de um vendedor tem quatro camadas. A maior parte das empresas só olha a primeira quando decide abrir a vaga.
| Camada | O que inclui | Base legal ou origem |
|---|---|---|
| Remuneração | Salário fixo, comissões, DSR sobre comissões, prêmios habituais | CLT, art. 457; Lei 605/1949; Súmula 27 do TST |
| Encargos sobre a folha | INSS patronal, RAT, terceiros, FGTS | Lei 8.212/1991, art. 22; Lei 8.036/1990, art. 15 |
| Provisões | 13º salário, férias com 1/3 e os encargos sobre eles | Lei 4.090/1962; CLT, art. 130; Constituição, art. 7º, XVII |
| Benefícios e estrutura | Vale-transporte, alimentação, plano de saúde, celular, CRM, carro | Convenção coletiva e política da empresa |
Remuneração: fixo, comissão e DSR
A CLT inclui as comissões no salário (art. 457, § 1º). Isso tem duas consequências práticas. Primeiro, a comissão entra na base de todos os encargos. Segundo, o vendedor comissionado tem direito ao descanso semanal remunerado (DSR) calculado sobre as comissões, conforme a Súmula 27 do TST e a Lei 605/1949.
O cálculo mais usado para o DSR sobre comissão é:
DSR = (comissões do mês ÷ dias úteis do mês) × domingos e feriados do mês
Exemplo: comissão de R$ 2.000 em um mês com 25 dias úteis (contando os sábados) e 5 domingos e feriados. O DSR é R$ 2.000 ÷ 25 × 5 = R$ 400. A contagem de sábado como dia útil e a forma de pagar o DSR (destacado ou embutido) dependem da convenção coletiva e da prática da empresa. Antes de fechar a planilha, peça ao contador para confirmar se a convenção coletiva da categoria traz regra própria para o DSR do comissionista e se o sábado conta como dia útil.
Uma regra que pega muita gente: o vendedor que recebe só comissão tem garantia de receber pelo menos o salário mínimo (Constituição, art. 7º, VII). Em mês fraco, a empresa complementa.
Encargos sobre a folha
No regime geral (Lucro Presumido ou Lucro Real), a empresa recolhe sobre a remuneração do empregado:
- INSS patronal: 20% (Lei 8.212/1991, art. 22, I).
- RAT/SAT: 1%, 2% ou 3%, conforme o grau de risco da atividade preponderante (Lei 8.212/1991, art. 22, II), ajustado pelo FAP, que pode reduzir ou aumentar a alíquota.
- Contribuições a terceiros (salário-educação e entidades do Sistema S, entre outras): o percentual depende do código FPAS da empresa. No FPAS 515, usado no comércio, a soma é 5,8%: salário-educação 2,5%, Incra 0,2%, Senac 1%, Sesc 1,5% e Sebrae 0,6% (tabela de códigos FPAS da Receita Federal, IN RFB 2.110/2022). Outros códigos têm percentuais diferentes, por isso confirme o seu com o contador. O exemplo abaixo usa 5,8%.
- FGTS: 8% da remuneração, inclusive sobre o 13º (Lei 8.036/1990, art. 15).
No Simples Nacional, a contribuição patronal previdenciária (CPP) está incluída no DAS para a maioria das atividades (Lei Complementar 123/2006, art. 13, VI), e a empresa fica dispensada das contribuições a terceiros (art. 13, § 3º). O FGTS continua sendo recolhido à parte. A exceção são as atividades de serviço do Anexo IV, que recolhem a CPP fora do DAS. Isso não quer dizer que o Simples “não tem encargo”: o custo previdenciário está diluído na alíquota sobre o faturamento.
Provisões: 13º e férias
Todo mês, a empresa acumula 1/12 do 13º salário e 1/12 das férias acrescidas de 1/3. Quem não provisiona leva susto em dezembro e no mês de férias. E as provisões também carregam encargos: o 13º tem INSS e FGTS, e as férias gozadas também.
Cálculo passo a passo: quanto custa um vendedor por mês
Premissas do exemplo, todas ilustrativas:
- Salário fixo: R$ 3.600.
- Comissão média: R$ 2.000.
- DSR sobre comissão: R$ 400 (calculado acima).
- Remuneração mensal: R$ 6.000.
- Regime geral: INSS 20%, RAT 2% (risco médio, FAP 1,0), terceiros 5,8%.
- Benefícios (vale-transporte, alimentação): R$ 800 por mês, valor que varia muito por empresa e convenção.
| Linha | Regime geral | Simples (Anexos I a III) |
|---|---|---|
| Remuneração (fixo + comissão + DSR) | R$ 6.000,00 | R$ 6.000,00 |
| INSS patronal (20%) | R$ 1.200,00 | no DAS |
| RAT (2%) | R$ 120,00 | no DAS |
| Terceiros (5,8%) | R$ 348,00 | dispensado |
| FGTS (8%) | R$ 480,00 | R$ 480,00 |
| Provisão de 13º (1/12) | R$ 500,00 | R$ 500,00 |
| Provisão de férias + 1/3 (1/12 × 4/3) | R$ 666,67 | R$ 666,67 |
| Encargos sobre as provisões | R$ 417,67 (35,8%) | R$ 93,33 (só FGTS) |
| Subtotal sem benefícios | R$ 9.732,34 | R$ 7.740,00 |
| Benefícios | R$ 800,00 | R$ 800,00 |
| Custo mensal total | R$ 10.532,34 | R$ 8.540,00 |
| Multiplicador sobre a remuneração | 1,76 | 1,42 |
Três leituras dessa tabela:
- O vendedor que “ganha R$ 6 mil” custa entre R$ 8,5 mil e R$ 10,5 mil por mês, conforme o regime. Use o número da direita ou da esquerda conforme o enquadramento da sua empresa, e peça ao contador para refazer com as suas alíquotas.
- Cada real a mais de comissão custa mais de um real. No regime geral, R$ 1.000 de comissão viram cerca de R$ 1.200 de DSR e comissão juntos, e com encargos e provisões passam de R$ 1.900. Isso precisa entrar na conta de margem da política de comissão de vendas.
- A estrutura não está na tabela. Licença de CRM, telefone, notebook, deslocamento e parte do salário do gestor também são custo da vaga.
Modelo de planilha para a sua conta
Monte uma planilha com estas linhas e preencha com os dados da sua empresa:
- Salário fixo previsto na proposta.
- Comissão média esperada de quem bate a meta.
- DSR sobre comissão, pela regra da sua convenção.
- Alíquotas de INSS, RAT ajustado pelo FAP e terceiros (do contador).
- FGTS de 8%.
- Provisões de 13º e férias com 1/3, com encargos.
- Benefícios obrigatórios da convenção e os oferecidos pela empresa.
- Ferramentas e estrutura por vendedor.
- Custo do processo seletivo (horas internas ou serviço contratado).
- Custo do período de rampa: meses em que o vendedor custa integralmente e vende parcialmente.
O custo que ninguém coloca na planilha: a rampa
Um vendedor novo não vende o mesmo que um veterano no primeiro mês. Ele precisa aprender o produto, o cliente e o processo. Durante a rampa, a empresa paga o custo cheio e recebe uma fração da produção.
Exemplo ilustrativo: se o vendedor maduro gera R$ 40 mil de margem por mês e a rampa for de 25% no 1º mês, 50% no 2º e 75% no 3º, a empresa deixa de receber R$ 60 mil de margem nos três primeiros meses em relação a um vendedor já produtivo. Isso não é desperdício, é investimento. Mas só se a pessoa ficar e chegar a 100%.
Para saber a rampa da sua operação, pegue os últimos vendedores contratados e marque o mês em que cada um atingiu, pela primeira vez, a produção média dos veteranos. Escolha um critério só (vendas, margem ou meta cumprida) e mantenha. A rampa tende a ser mais curta na venda de ciclo curto e mais longa na venda consultiva B2B, em que o vendedor precisa de tempo para formar a própria carteira de oportunidades. Use esse número, e não um palpite, na planilha.
O roteiro de onboarding que encurta essa rampa está no guia como contratar vendedor.
Quanto custa contratar o vendedor errado
É aqui que a conta muda de tamanho. A contratação errada raramente aparece no primeiro mês. Ela aparece entre o segundo e o quarto, quando os números não evoluem. Até lá, a empresa já pagou a remuneração, os encargos, a rampa e o tempo do gestor.
Simulação com as mesmas premissas (regime geral), para um vendedor desligado sem justa causa depois de quatro meses:
| Componente | Premissa | Valor estimado |
|---|---|---|
| Custo mensal total × 4 meses | R$ 10.532 × 4 | R$ 42.128 |
| Rescisão: aviso prévio indenizado e reflexos | 30 dias de remuneração (Lei 12.506/2011) mais FGTS | R$ 6.480 |
| Multa de 40% sobre o FGTS depositado | Lei 8.036/1990, art. 18, § 1º | cerca de R$ 1.000 |
| Horas do gestor em treino e acompanhamento | 4 h por semana × 16 semanas × R$ 100/h | R$ 6.400 |
| Leads consumidos sem conversão | 200 leads × R$ 40 de custo por lead | R$ 8.000 |
| Novo processo seletivo | Horas internas ou serviço contratado | Fora do total: some o custo da sua empresa |
| Total visível na conta | cerca de R$ 64 mil |
E ainda faltam duas linhas que costumam ser as maiores:
- Margem que um vendedor na média teria gerado no mesmo período. Se um vendedor produtivo gera R$ 40 mil de margem por mês, quatro meses de vaga mal ocupada podem significar mais de R$ 100 mil de margem perdida.
- Clientes queimados. Um lead mal atendido não volta para a fila. Em vendas B2B, uma conta-alvo mal abordada pode ficar fechada por anos. O efeito aparece no CAC, mesmo que ninguém ligue os pontos.
Os valores da simulação são aproximados e servem para mostrar a ordem de grandeza. As verbas rescisórias exatas dependem do tempo de casa, do motivo do desligamento e da convenção coletiva, e devem ser calculadas pelo contador.
Para refazer essa conta com os seus números, levante os dados do último desligamento precoce:
- Meses que a pessoa ficou e o custo mensal total no período.
- Verbas rescisórias pagas (o contador tem o valor exato).
- Horas do gestor em treino e acompanhamento.
- Leads e contas atendidos sem conversão.
- Tempo que a vaga ficou aberta até a nova contratação.
A soma costuma surpreender porque cada linha sai de um orçamento diferente e ninguém olha para elas juntas.
Contratar certo custa menos do que contratar rápido
A pressa é a principal causa de contratação errada. A vaga está aberta, a meta está apertando e o primeiro candidato razoável vira o escolhido. Comparando as duas contas acima, fica claro por que vale gastar mais tempo e método no processo seletivo:
| Decisão | Custo de fazer bem | Custo de errar |
|---|---|---|
| Definir o perfil antes de anunciar | 2 a 3 dias do gestor | Contratar alguém que vendeu de um jeito muito diferente |
| Aplicar teste prático | Uma hora por finalista | Contratar o melhor entrevistado, não o melhor vendedor |
| Checar referências | Duas ligações | Repetir o problema que o ex-gestor já conhecia |
| Preparar o onboarding | Uma semana de preparação | Rampa longa ou fracasso de um bom candidato |
Um processo bem estruturado combina perfil escrito, entrevista por competências com as perguntas certas, simulação de venda e referências. Quando a empresa não tem tempo ou método para isso, contratar um processo de recrutamento especializado em vendas, como o da VMX, sai mais barato do que um erro de quatro meses.
Ao avaliar um processo de recrutamento, interno ou contratado, confira se ele tem perfil da vaga escrito a partir do tipo de venda, simulação com um cenário do seu produto, checagem de referências com ex-gestores, prazo definido para cada etapa e regra clara para o caso de o contratado não ficar (reposição, prazo e condições). Sem esses itens, o risco de errar continua o mesmo, só fica mais caro.
E se contratar como PJ?
Na nota fiscal, o vendedor PJ custa menos, porque não há INSS patronal, FGTS, 13º nem férias. Mas a CLT considera empregado quem presta serviço pessoal, não eventual, subordinado e mediante salário (art. 3º), e a natureza da relação é definida pela rotina, não pelo contrato. Se o vendedor PJ cumpre horário, recebe meta da empresa e responde a um gestor, o risco é a Justiça reconhecer o vínculo e cobrar todas as verbas e encargos de forma retroativa.
Existe também o representante comercial autônomo, com lei própria (Lei 4.886/1965), que tem regras de comissão, aviso prévio e indenização na rescisão. Ele também gera custos que precisam entrar na conta. A escolha do modelo deve ser feita com advogado trabalhista, olhando a rotina real da função.
Resumo: a conta em uma frase
O custo de um vendedor CLT é a remuneração multiplicada por algo entre 1,4 e 1,8, conforme o regime tributário e os benefícios, mais a rampa e a estrutura. O custo de um vendedor errado é tudo isso somado a meses de margem perdida e clientes queimados. A forma mais barata de contratar é contratar certo da primeira vez.
Perguntas frequentes
Quanto custa um vendedor CLT além do salário?
Depende do regime tributário da empresa. No regime geral (Lucro Presumido ou Real), somando INSS patronal, RAT, contribuições a terceiros, FGTS e as provisões de 13º e férias com 1/3, o custo mensal costuma ficar na faixa de 1,5 a 1,7 vez a remuneração, antes dos benefícios. Em empresas do Simples Nacional nos Anexos I a III, a contribuição patronal está dentro do DAS e o custo sobre a folha é menor. O cálculo exato deve ser feito pelo contador.
A comissão do vendedor também gera encargos?
Sim. Pela CLT (art. 457, § 1º), comissões integram o salário. Elas entram na base do INSS patronal e do FGTS, geram reflexo em 13º e férias e dão direito ao descanso semanal remunerado (Súmula 27 do TST). Por isso a comissão custa mais do que o valor que aparece no holerite como comissão.
Qual o custo de contratar o vendedor errado?
Além da remuneração e dos encargos pagos nos meses em que ele ficou, entram a rescisão, as horas do gestor em treinamento e acompanhamento, os leads que ele consumiu sem converter e o tempo até o substituto começar a vender. Em muitos casos, a soma passa de seis vezes a remuneração mensal, mesmo que a pessoa fique só alguns meses.
Contratar vendedor PJ sai mais barato?
Na nota fiscal, sim, porque não há encargos trabalhistas. Mas se a rotina tiver subordinação, horário, meta imposta e trabalho pessoal e contínuo, a relação pode ser reconhecida como emprego (art. 3º da CLT), com cobrança retroativa de verbas e encargos. A escolha do modelo precisa passar por advogado trabalhista.
CEO do Grupo VMX
Geovane Martins é CEO do Grupo VMX, empresa de Belo Horizonte que ajuda empresas a venderem mais com consultoria comercial, marketing e recrutamento de vendedores. Escreve sobre gestão comercial, contratação de equipes de vendas e crescimento.